13.06.2026

Sábado

21:30

MARIA LUIZA JOBIM

Rosa no Céu e Maria Luiza Jobim nas alturas Algumas canções têm o poder de abrir portas, iluminando lugares, revelando sentidos e despertando emoções, que podem ser novas até para quem compõe e interpreta. O novo disco de Maria Luiza Jobim é a descoberta de um jardim das delícias, fruto da imaginação da cantautora e da produção primorosa de Marcelo Camelo. Nessa cumplicidade, que se foi estreitando ao longo da gravação e da própria escrita de algumas das canções, desenha-se um encontro feliz com Portugal, onde Maria Luiza descobriu também um novo amor. Este é, por isso, um disco feliz em todos os sentidos. “Rosa no Céu” balança com à vontade entre o português do Brasil e o inglês, misturando a seu bel-prazer influências do samba, do pagode, da música latina e da pop anglo-saxónica, numa fusão andarilha de quem percorre o mundo sem preconceitos, em busca daquilo que ele tem de melhor. Depois de “Casa Branca”, o seu primeiro álbum de estúdio e referência clara ao lugar de pertença da infância, e “Azul”, horizonte aberto onde Maria Luiza se consolidou como compositora, “Rosa no Céu” chega até nós em tonalidades quentes, continuando essa sinestesia do processo criativo da cantora, onde cores e imagens se misturam para a concretização de bons presságios. “Rosa no Céu”, escrita por Camelo e Mallu Magalhães, é também a canção que dá nome ao disco, com belíssimo arranjo de cordas do violoncelista Jacques Morelenbaum, letra fotográfica que evoca o céu lisboeta feito de promessas. “Boca-a-boca”, dueto com António Zambujo, escrito em parceria com Camelo, é uma pérola iniciada numa jornada solitária que se arredonda no disco, como num amanhecer íntimo a dois. A história de amor entre os dois intérpretes está também presente em “Portugal”, tema de sabor latino, apesar de ironicamente cantado em inglês, e um dos preferidos de Maria Luiza. Há liberdade e leveza nas oito faixas que compõem este álbum sem fronteiras, que se permite incluir “La Javanaise” de Gaisnbourg, em claro contraste com a delicadeza da voz da cantora, e acenar a Jorge Aragão, cuja voz profunda Maria Luiza imaginava em “Sofá Vermelho”, primeira parceria com Camelo, que fez o arranjo e transformou a canção, deixando-a quase Bossa Nova, quase sem querer. E depois há “Go Go Go, primeiro single do disco, lançado em outubro passado, a pop etérea escrita no violão, de refrão orelhudo que nos hipnotiza docemente. Os arranjos de Camelo agregam e elevam cada tema, convertendo-o num clássico, como em “We are Young”, composição do músico com Mallu Magalhães, melodia familiar e harmonia bem construída. Maria Luiza é uma voz à escuta do mundo e da natureza e isso atravessa a sua música. O caminho feito em nome próprio não nega a sua herança musical, mas tem-se construído autonomamente, numa evolução clara e atenta aos sinais. Desde o início de sua carreira, a voz de Maria Luiza ganhou corpo sem perder o lirismo suave da sua poesia e assume aqui personalidades diferentes, conforme a fonética é a da sua língua mãe ou a do inglês que lhe é tão próximo, o que traz uma riqueza especial ao disco. E se falamos em “Sinais”, letra de Camelo, mas que podia ser da autora, esse misticismo assume-se, a composição lembrando Marina Lima, ancorando-se na percussão fluída e sedutora e no próprio arranjo cuidado. “Rosa no Céu” já passou por Lisboa e tem concertos marcados para Madrid, Paris e Londres. Maria Luiza Jobim disse um dia que a maior aventura que se faz na vida é o mergulho que podemos dar para dentro de nós próprios. “Rosa na Céu” vai mais fundo, mas voa alto e promete levar-nos com ele.

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